Livro Não é Caixa de Sabão em Pó

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No mercado editorial, a capa do livro fica sempre no meio do embate “livro como objeto cultural” versus “livro como produto” — uma batalha épica entre o caráter editorial e o caráter comercial da publicação.

Na minha opinião o equilíbrio deve sempre prevalecer pois ver o livro apenas como objeto cultural ou artístico é tão prejudicial como vê-lo apenas como um produto qualquer.

Infelizmente, na ânsia desesperada de promover o livro como produto, algumas editoras transformam as capas de livros em verdadeiros outdoors, sem parar para refletir sobre este tipo especial de consumidor que é o leitor e nas relações emocionais que o conecta ao livro.

Esta visão simplista de vendas se traduz obviamente nas capas de livros. E é representada na maneira exagerada de gerar o apelo visual necessário para chamar a atenção do consumidor: letras enormes, garrafais, para título, nome do autor, chamadas, além de cores vivas e contrastantes por toda a capa. Para um editor com esta maneira estritamente comercial de enxergar o livro, potencializada ainda pelo medo de um resultado negativo nas vendas, o apelo visual naturalmente assume o seguinte tom desesperado:

Gritos ruidosos, altos, estridentes:
— Eu tô aqui!!! Eu tô aqui!!! Eu sou muito bom!! Compre-me!!!! Compre-me pelamordedeus!!! Olhe para mim!!!!”

Já o designer gráfico editorial sabe que não precisa partir para o exagero. Com seu conhecimento técnico e teórico sobre comunicação visual, ele usa o apelo visual de maneira bem mais objetiva e confiante. O tom é, consequentemente, totalmente diverso:

Um assovio em um tom especial, encantador, quase irresistível, que hipnotiza o leitor dizendo:
— Olá, venha dar uma olhada em mim, sou diferente, único. Veja como meu conteúdo é interessante, tenho certeza que vc vai me levar…

Ou seja, enquanto alguns editores tendem a sempre trilhar o caminho mais fácil para chamar a atenção, utilizando seus limitados conhecimentos de linguagem visual (“Aumente o título, aumente o nome do autor, coloque cores chamativas na capa”), o designer editorial deve, sempre que possível, insistir com a editora para criar este apelo visual utilizando recursos mais criativos, principalmente conceituais, sem partir para técnicas visuais simplistas e exageradas.

Afinal, este Capista aqui ainda prefere acreditar que “livraria não é bem um supermercado e capa de livro não é exatamente uma caixa de sabão em pó.

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Rubens Lima

Designer gráfico com mais de 20 anos de experiência na criação de capas de livros para tradicionais editoras do mercado. Profissional com centenas de capas publicadas e, por três vezes jurado do Prêmio Jabuti — o mais importante prêmio do mercado editorial brasileiro — nas categorias capa de livro, projeto gráfico e ilustração. É professor de Design Editorial no curso de pós-graduação MBA Book Publishing e no curso EAD de Formação de Editores.
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