Capas de Livros: 5 dicas para Autores

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Atender diretamente autores da área de livros técnicos, profissionais e acadêmicos, sem intermediação das editoras, tem sido uma ótima experiência. Vejo que os professores, consultores, coaches e outros profissionais relevantes em suas áreas de atuação que atendo são muito mais abertos a orientações e ao diálogo que os editores. Ajudar esses escritores a realizar o sonho de publicar seus livros com uma capa realmente profissional é motivo de muita alegria e satisfação para mim.

Nessa minha experiência, percebi que muitos autores chegam a nós, designers profissionais, com uma concepção errada sobre a a capa de livro. Por isso, elaborei algumas dicas para ajudar os autores a compreenderem melhor a criação deste elemento tão vital para a divulgação eficiente de sua obra no mercado livreiro. Espero que as dicas sejam úteis para vocês! São elas:

  • A capa de livro deve agradar primeiro o leitor, não o autor.
  • Evite ideias preconcebidas ao contratar um capista profissional
  • A capa de seu livro deve ser direta e objetiva
  • Defina seu público-alvo, o público leitor ideal para sua obra
  • Evite enquetes e votações com amigos e familares

 

1) Acredite, o foco do projeto da capa de seu livro não é você, autor

Se quiser ter um livro bem sucedido em termos de imagem e vendas, o autor deve compreender que precisa servir e satisfazer seu leitor, ou seja, preencher os anseios e as expectativas deles. Infelizmente, um dos principais enganos que os autores cometem na hora de solicitar, analisar ou aprovar a capa de seu livro é esquecer do leitor e focar em si mesmo, em seu próprio gosto pessoal, ou seja, no que ele, como escritor, gostaria de ver na capa para se sentir satisfeito.

A capa de livro deve ser criada para chamar a atenção do seu público-alvo. Ou seja, todo o processo de criação da capa de um livro deve ser focado em encantar os leitores — não em satisfazer o próprio autor.

Sinceramente, o que adianta o autor ficar pessoalmente feliz e satisfeito com a capa de sua obra, se a capa não fizer o leitor se interessar pela compra do livro?

Não podemos esquecer também que, muitas vezes, o perfil do autor é bem diferente do perfil do leitor de seu livro. Um exemplo: Uma prestigiada professora de renomada Faculdade de Engenharia, com 68 anos de idade, escreve um livro para estudantes de 17 a 19 anos matriculados no primeiro ano do curso superior de engenharia. A autora, certamente, não pode se basear em seu gosto pessoal para definir (ou avaliar) a capa de seu livro. Nesse caso, a grande dificuldade da autora será aceitar que o foco da capa de livro não é agradá-la, mas sim agradar seus jovens alunos, seus leitores.

Autores e designers devem então trabalhar juntos, tentando entender e atender as expectativas dos leitores — não as expectativas pessoais (e nada comerciais) do autor.

 

2) Evite ideias preconcebidas ao contratar um capista profissional

Muitos autores, por pura falta de experiência na área editorial, abordam o designer capista com uma ideia pronta: “Olha Rubens, quero uma capa azul, com titulo bem grande, que tenha uma foto de um executivo correndo e atrás dele um relógio com os ponteiros andando muito rápido” ou “Rubens, já tenho uma capa pronta que eu mesmo criei, você pode fazer uns ajustes e melhorias para deixá-la mais profissional?”.

Acreditem, essa não é a melhor abordagem.

O autor independente é um grande conhecedor de sua própria obra, de seu texto e também do assunto que trata, mas precisa reconhecer que, geralmente, tem pouco conhecimento sobre o mercado editorial e livreiro. Além disso, apresenta nenhum conhecimento sobre design gráfico e linguagem visual.

O principal trabalho do designer editorial é justamente criar o conceito e a mensagem visual da capa do livro. Seu trabalho não é “embelezar” um conceito já criado pelo autor (normalmente uma ideia bastante pessoal, nada editorial e muito menos comercial). Ao procurar o capista profissional com uma ideia pronta, o escritor acaba limitando — e muito — a capacidade desse designer ajudá-lo com sua experiência de mercado a criar uma capa comercialmente eficiente. 

Vejo que o autor, muitas vezes, não percebe o quanto sua ideia foi baseada em parâmetros pessoais, desconsiderando aspectos técnicos e comerciais em relação a seu leitor, ao mercado e ao segmento editorial de sua obra.

Nunca me esqueço de um autor que chegou com uma ideia pronta e percebi claramente que era uma ideia óbvia, imatura, que subestimava muito seu leitor e sequer tocava no conceito chave que justamente valorizaria sua obra aos olhos do público. Quando perguntei se ele estava aberto a outras sugestões, ele respondeu: “Não, Rubens, esta ideia me veio em um sonho e por isso tenho certeza que é perfeita para meu livro”. Fiquei sem argumentos, agradeci e, educadamente, indiquei outro profissional para ajudá-lo — não um designer, um profissional de criação, mas sim um diagramador, um profissional de produção que pudesse ajudá-lo apenas a montar sua ideia no computador.

 

3) A capa de seu livro deve ser direta e objetiva

A capa é o principal elemento comercial do livro. Como já expliquei em outros textos, a capa não é obra de arte para ser analisada lenta e demoradamente. A capa é, na verdade, a embalagem deste produto chamado livro.

Sua principal função é capturar a atenção do leitor rapidamente: ele deve bater o olho na capa e se sentir atraído e motivado a querer saber mais sobre o livro e ler a apresentação comercial mais detalhada da obra na quarta capa e nas orelhas, folhear o livro — e ser conquistado pelo conteúdo que o autor tanto elaborou.

A capa deve atiçar rapidamente a curiosidade e despertar o interesse do seu leitor. Para isso, ela deve ter poucos elementos: um elemento visual forte e textos objetivos, mas instigantes.

Infelizmente, raras editoras explicam isso para seus autores. Muitos autores, empolgados com a própria obra, querem representar todo o conteúdo de seu livro na capa, utilizando diversas imagens (ou uma imagem complicada cheia de informação), ilustrações, gráficos, etc… e MUITO texto. Nada pode ficar de fora. É a insegurança que faz com que os autores queiram explicar todo o seu livro na capa.

O resultado para o leitor não poderia ser outro: excesso de informações visuais e textuais, difíceis de serem absorvidas e interpretadas rapidamente. O que mata o poder comercial da capa de livro, afinal, diante de muita informação para decodificar, a chance do cérebro simplesmente ignorar esta capa é grande.

Posso até dar alguns exemplos dentro de meu segmento editorial:

Um autor, da área de desenvolvimento pessoal, insistia no excesso de texto na capa: ele queria colocar na capa o título (um texto já longo), um subtitulo (mais longo ainda) e mais duas chamadas diferentes explicando diferentes aspectos do livro. Já outro autor, de um livro técnico sobre produção de petróleo, solicitava que todo o processo de refino fosse explicado, ou melhor, simbolizado na capa com uma imagem e um diagrama para cada etapa (e eram sete etapas!).

É importante compreender que a capa frontal não serve para resumir nem para explicar ou sequer antecipar muitas informações da obra para o leitor.

O grande esforço do capista é tentar identificar o conceito-chave do livro (seu ponto principal ou seu diferencial) e tentar representá-lo de maneira simples e objetiva de modo a instigar o leitor, atiçar sua curiosidade, usando uma linguagem visual que também identifique facilmente o gênero e o tipo de livro que o leitor vê a sua frente nas prateleiras ou páginas de livrarias virtuais.

 

4) É importante definir quem é seu público leitor

Se você compreendeu no primeiro item deste artigo que a capa de livro deve ser focada no seu público-leitor, então certamente precisamos definir muito bem quem é este público!

Para dar direcionamento à sua capa (na verdade, para direcionar todas as ações de divulgação de seu livro), o autor precisa definir muito bem o perfil do leitor principal para quem ele escreve, ou seja, o perfil que melhor sintoniza não só com o assunto e objetivos do livro mas com a linguagem e tom em que o autor escreve.

Abandone a ideia sedutora (e sempre equivocada) de que seu livro é para TODOS, ou seja, homens e mulheres, de 18 a 80 anos e que serve a todas as classes sociais, níveis de escolaridade etc. Isso é ilusório. Raríssimo um livro que tenha o assunto, conteúdo, linguagem e situações que agradem, cativem e preencham igualmente os anseios um jovem rapaz de 18 anos da classe C, pré-universitário e uma senhora de 65 anos, da classe A, que completou apenas o ensino fundamental. Seu público-alvo não pode ser “todo mundo que se interesse por esse assunto”.

Lembre sempre dessa norma: quem quer agradar todo mundo, acaba não agradando ninguém.

Que tal mostramos um caso real? Um autor que me contratou, escreveu um livro no segmento de desenvolvimento pessoal, uma das minhas especialidades. O assunto da obra era depressão. O autor havia vivido essa situação e a superado com louvor e, agora, gostaria de ajudar outras pessoas na mesma situação. Quando perguntei qual seria o público-alvo, ele respondeu prontamente: “Ah, todas as pessoas que estão sofrendo com a depressão”. Na resposta, o autor pensou apenas no tema do livro.

Mas, sob o ponto de vista de um lançamento editorial — na verdade, o lançamento de qualquer produto comercial— temos que pensar também nas outras características do livro: a complexidade e o tom da linguagem, os exemplos e situações citadas no texto, o número de páginas, se o livro tem imagens ou ilustrações — entre várias outras variáveis.

Tudo isso é informação para tentarmos achar qual o público específico, ideal para a obra, o tal público-alvo. No caso do livro sobre depressão, ele foi escrito por alguém que teve os sintomas da doença aos 35 anos e os exemplos de como a doença interferia em sua vida eram relacionados a alguém adulto que já trabalhava e tinha filhos. Ou seja, seria menos provável que um estudante de 18 anos se visse refletido nessa publicação.

Mas aí você me pergunta:

“Mas esse adolescente não poderia ser ajudado pelo livro?” — Claro que poderia!

“Esse adolescente não poderia se interessar e comprar o livro?” — Claro que poderia!

Aí se faz necessária uma explicação importante: focar a capa do livro e as ações de divulgação da obra em seu público principal ou seu público ideal, de maneira nenhuma, exclui os outros perfis de leitores que possam se interessar por seu livro. Serve apenas para focarmos melhor os esforços para conquistar o público perfeito para a obra, aquele que tem seus desejos e anseios totalmente preenchidos pela publicação. Ou seja, a chance maior de sucesso comercial desse livro seria focar sua divulgação (e capa) em homens e mulheres (o gênero aqui não faria tanta diferença) na faixa de 30 a 40 anos, profissionais, classe A/B como o autor e que tiveram seu trabalho e sua família afetadas por sua condição. Seria o livro perfeito para esse público!

Por isso eu insisto: defina o perfil de leitor que mais se adequa à linguagem de seu texto, aos exemplos que utiliza, às necessidades específicas que seu livro preenche. Não seja genérico. Defina sexo, faixa etária (seja específico: no máximo 10 anos de intervalo), escolaridade, classe social, localização geográfica, hobbys, hábitos de leitura (obras, autores), se tem ou não profissão específica — e até quais os principais ambições, problemas ou necessidades específicas que este público tem e gostaria de preencher? E mais: o ideal é que faça isso antes de começar a escrever seu livro. Para que, tudo que você escreva, seja dialogando com esse público que definiu.

Um exemplo de definição de público alvo: Meu público prioritário são mulheres na faixa de 29 a 36 anos, de perfil independente, com formação superior e da classe A/B. São as profissionais liberais que tem filhos e encontram grande dificuldade em equilibrar a vida profissional com a vida familiar. É uma mulher já acostumada a comprar livros de desenvolvimento pessoal de autores como Augusto Cury, Roberto Shinyashiki entre outros, além de livros técnicos relacionados à sua profissão.

 

5) Evite enquetes e votações entre amigos e familiares

Depois que apresento as opções de layouts de capa para os autores, alguns deles ficam inseguros e recorrem a enquetes, votações com familiares, colegas e amigos para ajudar a decidir a aprovação da capa ou para escolher a melhor opção para o livro.

Eu vejo com certa desconfiança este método para quem está prestes a publicar um livro profissional. Vamos refletir sobre isso:

a) como serão opiniões pessoais (não profissionais), provavelmente o autor receberá muitos pontos de vistas diferentes e conflitantes, o que pode deixá-lo mais confuso e inseguro ainda.

b) as pessoas consultadas normalmente não terão o mesmo perfil do leitor da obra, ou seja, não fazem parte do público alvo da sua obra. A opinião delas terá pouco ou nenhum valor em relação a real eficiência comercial da capa no mercado.

c) quando perguntadas sobre sua capa, as pessoas terão um abordagem completamente diferente do que teria seu verdadeiro leitor no momento de busca ou de compra, quando diante de seu livro em uma prateleira ou uma página de uma livraria online.
Uma pessoa questionada sobre uma capa fará uma análise lenta, consciente, para embasar sua opinião e dar uma resposta para você. Já o leitor em busca de um livro será abordado de maneira instantânea — e utilizará um raciocínio rápido, inconsciente emocional e primitivo para avaliar sua capa.

d) A grande maioria das pessoas que vai opinar acabará usando critérios subjetivos, por exemplo, seu gosto pessoal em relação à estética da capa. É natural, pois são pessoas sem embasamento técnico ou comercial em relação ao mercado editorial — e elas não sabem que não estamos procurando ou selecionando a capa mais bonita ou a que ela, pessoalmente, mais gosta, mas sim a capa que irá despertará a curiosidade de seu leitor para o assunto e turbinar a venda de seu livro.

Aqui entre nós, a única enquete que pode ser realmente positiva é de autores que tem relacionamento direto com seus leitores. Ou seja, já tem uma plataforma sólida de seguidores cujo perfil é o mesmo de seu público-alvo.

Nesse caso, esse tipo de pesquisa em redes sociais como facebook, instagram e linkedin, serve também como uma forte ação de divulgação do lançamento de seu livro. Uma enquete — algo como: Qual a capa que vocês escolheriam para meu livro, a número 1 ou 2? — ajudaria a trazer envolvimento e engajamento de sua plataforma, ou seja, eles se sentiriam participantes do processo de produção de seu livro. O que é algo muito positivo.

A única dica que deixo é: escolha duas opções que você, sua editora e seu designer tenham certeza que preenchem as necessidades comerciais de seu livro. Não arrisque. A voz do povo nem sempre é a voz de Deus — e seu livro pode se dar mal.

Rubens Lima, designer editorial

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Rubens Lima

Designer gráfico com mais de 20 anos de experiência na criação de capas de livros para tradicionais editoras do mercado. Profissional com centenas de capas publicadas e, por três vezes jurado do Prêmio Jabuti — o mais importante prêmio do mercado editorial brasileiro — nas categorias capa de livro, projeto gráfico e ilustração. É professor de Design Editorial no curso de pós-graduação MBA Book Publishing e no curso EAD de Formação de Editores.
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