Capa de livro Profissional x Amadora

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Não é fácil explicar a autores independentes e pequenas editoras a diferença entre uma capa de livro profissional e uma capa totalmente amadora. Uma capa profissional tem eficiência comercial para elevar a obra diante do leitor, de mostrar a ele a qualidade do livro. Nesse caso, a capa do livro consegue chamar a atenção do público-leitor, provocá-lo, cativá-lo — e, finalmente, fazê-lo realizar a compra do livro. Uma capa amadora pode muitas vezes enganar e até satisfazer o autor. Principalmente quando o capista amador atende todos os desejos de quem escreveu a obra — sim, a capa amadora normalmente é criada para agradar o autor e não o que seria correto: focar e projetar para o público leitor. A capa feita por um amador, às vezes, é até esteticamente tolerável (o autor até gosta!) mas não dialoga intimamente com o leitor como deveria. Também não consegue refletir o trabalho árduo que o autor teve para escrevê-la.

Diferenças entre uma capa de livro profissional e a amadora


A capa profissional normalmente tem essas características:

• projetada para cativar o público-leitor
• conceito dominante bem definido
• preza a síntese visual e foca em apenas um ponto chave do livro.
• identidade forte, personalizada.
• foca e explora um elemento visual dominante
• composição de elementos (linhas, formas, imagens, ilustrações) equilibrada com o texto.
• alinhamentos bem definidos entre textos e elementos
• uso de um reduzido número de fontes (tipografia) e pertinentes ao tipo de livro e ao conceito central.
• projeto de cores seguindo esquemas teóricos e sendo coerente com o tema e o restante do projeto. 

A capa amadora apresenta algumas (ou, na pior das hipóteses, todas) essas características:
• feita para agradar o autor ou o editor
• conceito fraco, disperso ou inexistente
• tenta contar visualmente a história na capa (ficção) ou explicar o conteúdo de tudo que será abordado no livro (não ficção, principalmente livros profissionais e universitários)
• peca pela falta de identidade, impessoalidade
• elementos dispostos sem hierarquia, sem relação de dominância
• composição de elementos aleatória, sem projeto
• textos e elementos desalinhados, sem conexão na composição
• uso excessivo de diferentes fontes (três ou mais) e mal escolhidas (sem relação com o conceito da obra)
• abuso de fontes caligráficas e/ou decorativas
• projetos de cores aleatório, sem seguir um esquema de cores definido
• conjunto de cores sem relação conceitual com o tema da obra

Um caso prático do mercado editorial

Já é muito difícil para um editor enxergar e entender todas estas características acima, imaginem então a dificuldade para um autor, leigo no assunto. Para um melhor entendimento, o ideal é mostrar um caso prático do mercado. Pensei em compartilhar com vocês a solicitação de capa que recebi de um autor independente. Sua obra O Canto do Acauã tinha ótimas qualidades e a sinopse era realmente interessante.

A história era sobre uma menina muito rica, arrogante, mimada que a todos tratava mal. Ela sofre um acidente: seu avião bimotor despenca na floresta e ela fica dias e dias vivendo lá com a ajuda do piloto do avião, empregado de seus pais. A devoção deste empregado em ajudá-la e as agruras na floresta acabam por mudar sua visão da vida e ela acaba se entregando ao romance. Uma ficção de aventura com toque de romance, acompanhando a ascensão moral da protagonista e sua entrega ao amor que sua antiga índole não a permitia aceitar. 

Apesar de pouco aceitar criar capas para ficção, pois minha especialidade são livros para desenvolvimento pessoal, profissional, além de livros técnicos e acadêmicos, o que me fez entrar de cabeça no projeto foi o autor ter me enviado as capas anteriores que fizeram para ele:

acaua-capas-antigas

Fiquei abismado. Triste pensar que o autor pagou por todas elas. Todas as capas tem soluções amadoras e parecem ter apenas seguido as instruções do autor. Importante lembrar que o autor pode ser o maior especialista em seu texto e sua obra, mas normalmente tem pouco conhecimento sobre o mercado editorial e o mercado livreiro e nenhum conhecimento sobre design editorial e comunicação visual. É dever do designer editorial ensiná-lo, orientá-lo e ajudá-lo para que sua capa tenha a melhor solução editorial — e não, simplesmente, fazer o que ele pede.

A primeira capa (à esquerda) pouco remete a obra. Chega a ser indecifrável — o que seria esta mão dourada?  A imagem escolhida reflete mais uma obra de terror/suspense do que uma ficção de aventura com toques de romance. Nada de floresta (ponto chave da história), nada de acauã. Também não ajuda a composição sem identidade, tímida, “sem sal”.

A segunda capa tenta ser literal demais, tentando ilustrar toda a história na capa (incluindo um spoiler logo na capa: a realização do romance que só ocorre, como suposta surpresa para o leitor, na metade final do livro). O design não tem identidade, nem “tempero” e a ilustração tem qualidade técnica duvidosa (principalmente as feições das figuras humanas em primeiro plano). Falando em figuras humanas, afora romances bem populares (onde existe a necessidade de subestimar o leitor), evitamos identificar os personagens na capa. Mostrá-los claramente na capa impede que o leitor utilize sua imaginação para conceber a aparência dos personagens — justamente uma das grandes diferenças entre o cinema e a literatura. 

A terceira capa (à direita) é a mais próxima de uma solução profissional, mas peca na identidade e conceito visual. O uso apenas de uma foto realista de um acauã é um tanto direto demais — só faltava ele estar cantando para traduzir o título em imagem de forma redundante. E mais: a composição centralizada, o recorte retangular da foto, o uso de uma imagem sem efeitos (crua e realista), a cor séria, acinzentada, sem vida e a fonte tradicional escolhida, fazem a obra parecer ao leitor um livro técnico sobre aves — e não um romance.

Uma solução profissional para a capa do livro

E como seria uma solução profissional para esta obra?
Estes layouts abaixo foram as duas opções que apresentei ao autor:

acaua-capas-opcoes

Abaixo uma comparação do layout final aprovado pelo autor com as capas anteriormente feitas para ele:

capa de livro profissional x amadora

Qual destas capas tem mais chance de cativar o leitor, de chamar sua atenção, de introduzi-lo de maneira competente ao clima da história e ao tema? Se vc já sabe como responder esta pergunta, começa a compreender a diferença entre uma capa de livro profissional e uma capa feita por um amador.

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Rubens Lima

Designer gráfico com mais de 20 anos de experiência na criação de capas de livros para tradicionais editoras do mercado. Profissional com centenas de capas publicadas e, por três vezes jurado do Prêmio Jabuti — o mais importante prêmio do mercado editorial brasileiro — nas categorias capa de livro, projeto gráfico e ilustração. É professor de Design Editorial no curso de pós-graduação MBA Book Publishing e no curso EAD de Formação de Editores.
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